Vamos pôr este Sequeira no lugar certo!

Sobre a obra

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Domingos António de Sequeira


A Adoração dos Magos


1828
Óleo sobre tela
100 x 140 cm
Coleção particular

Pela prodigiosa modelação das figuras e da luz, pela plena integração destas componentes essenciais da pintura, pela invulgar estrutura da composição (uma multidão que liberta o claro espaço onde o episódio se focaliza, teatral visão de uma epifania da presença divina que é, ao mesmo tempo, forma humana e luz beatífica), A Adoração dos Magos é, como já em 1837 afirmava um académico romano, um absoluto capolavoro (obra-prima).

Trata-se, sem dúvida, de uma obra visionária que evidencia uma marca essencial do estilo de Domingos António de Sequeira: a sua enorme capacidade de síntese entre o clássico e o romântico, posicionando-o como um criador versátil e original num tempo de enormes mudanças. A Adoração dos Magos combina uma romântica interpretação do Oriente com uma idealizada atmosfera de luz transfiguradora, profundamente original, que apenas deve aos grandes mestres do passado uma atenta inspiração. O Museu Nacional de Arte Antiga possui a mais vasta coleção nacional de desenhos e pinturas de Sequeira. Falta-lhe, contudo, a sua obra final, aquela que o inscreve no mais alto patamar dos nossos grandes artistas do passado: A Adoração dos Magos.

Sobre o autor

Domingos António de Sequeira

Domingos António de Sequeira
Autorretrato
c. 1785
18,5 x 15,6 cm
MNAA, Inv. 2258 Des

Pobre de nascimento (Lisboa, 1765), Domingos António de Sequeira consegue, graças à precoce revelação do seu talento para o desenho, proteção aristocrática e uma bolsa da rainha para ir onde todos os jovens artistas sonhavam então poder aprender e aperfeiçoar-se: Roma. Esteve lá sete anos (1788-1795), privando com os melhores mestres, obtendo prémios académicos, viajando pela Itália e enviando, para Lisboa, algumas pinturas como prova dos seus progressos. Inesperadamente, resolve voltar à Pátria, antevendo o seu triunfo num país onde quase não havia pintores e onde, os que havia, eram geralmente medíocres. Puro engano: as encomendas, quando lhe surgiam, eram deveras mal pagas. Sequeira desilude-se e retira-se para a Cartuxa de Laveiras, pintando notáveis temas religiosos ao estilo dos antigos pintores monásticos. Em 1802, surge, finalmente, um evento que lhe muda a vida: é distinguido com o estatuto de pintor régio (e com um ordenado condicente).

A partir daí, pinta temas histórico-alegóricos para as residências da corte. Mantém esse estilo de pintor “oficial” sob a ocupação dos franceses (1808), sendo, por isso, acusado de colaboracionismo. Redime-se com alegorias às virtudes de D. João VI e à aliança anglo-portuguesa (de 1811 a 1816 ocupa-se, quase em exclusivo, do design e realização de uma rica baixela oferecida a Lord Wellington). É nessa época, já casado e com filhos, que ensaia e desenvolve as suas capacidades na pintura de retratos, género que lhe seria muito útil em conjuntura de revolução liberal (1820): o novo regime precisava de novos rostos, e de novas alegorias políticas, e Sequeira surge como o mais versátil e prestigiado intérprete artístico do triunfo do liberalismo.

Mas este triunfo foi instável e breve e a contrarrevolução de 1823 leva o pintor a exilar-se, definitivamente. Com duas curtas estadas em Paris, onde é distinguido no Salon de 1824, Roma representa, porém e de novo, o seu ambicionado destino, onde reencontra o melhor reconhecimento dos seus pares e do meio artístico. Para além de outros projetos, aí se dedica, de 1827 a 1832, à notável série de quatro pinturas religiosas que constituem o zénite da sua carreira e que exprimem, finalmente, a total liberdade do seu génio criativo. Um extraordinário testamento artístico no qual sobressai A Adoração dos Magos. Doente e incapaz de trabalhar, Sequeira morre a 8 de março de 1837, alguns dias antes de chegar a Roma a notícia de que havia sido agraciado com o título de diretor honorário da recém-criada Academia Real de Belas-Artes de Lisboa.